Brasília às 5h43, vista da passarela da Rodoviária: o Eixo Monumental desce entre os ministérios até as torres do Congresso; os postes e as janelas acendem contra o céu de antes do sol. Na borda de baixo, a ponta de uma lona cinza.

A redenção de Valério
Brasília, 5h43.
Ao nível da rua, ônibus passam em intervalos regulares pela pista sul da Esplanada e uma varredeira levanta poeira junto ao meio-fio. Trabalhadores de uniforme cinza caminham em duas filas alinhadas pela calçada, esperam na guia e atravessam em linha quando o semáforo abre para eles. À direita, a Catedral; adiante, no alto de um poste, uma câmera de segurança comum, com sua pequena luz vermelha.


Brasília desperta todos os dias às cinco e quarenta e três, sem um segundo de atraso.
O mesmo lugar visto de cima, pela lente da câmera: imagem curva, sem cor, quase sem contraste. Trabalhadores de uniforme atravessam a faixa em linha, junto ao abrigo de ônibus, onde algumas pessoas esperam de pé.

O visor de informações do abrigo de ônibus. Na tela, uma linha: LINHAGEM EM REVISÃO.

O caminho
Sol alto, na calçada do Eixo a oeste, a Torre de TV à frente e, na borda do quadro, a barra da lona cinza. Depois, uma estrada velha no cerrado seco: os postes rareiam, alguns apagados, e a poeira se prende à barra da lona.


Contra o céu branco, no alto de um poste velho, um suporte de câmera vazio.

A estrada passa sob a sombra de um viaduto de concreto. Na borda do quadro, a barra da lona.

O acampamento
Fim da tarde. Um terminal rodoviário antigo fora da cidade: a laje de concreto sobre pilares, lonas esticadas, barracas, um varal, fumaça, gente sentada nos bancos.

Uma mesa dividida por uma linha de farinha: de um lado, Dona Braz trabalha a massa; do outro, Otoniel organiza conectores e cabos. Uma porca atravessa a linha e é devolvida. Em dois momentos: a porca sobre a linha e depois de volta ao lado de Otoniel.


Começo da noite. De perto, a lona sobre os ombros de alguém sentado recebe os primeiros pingos de chuva: pontos escuros no tecido. Atrás, luzes desfocadas.

Sinopse
Brasília desperta todos os dias às cinco e quarenta e três, sem um segundo de atraso. Valério conta os ônibus e espera, há onze anos, pelo instante em que o sistema finalmente vai errar.
Quando uma auditoria de linhagem transforma sua origem em uma inconsistência, ele perde em poucas horas o trabalho, o crédito e o direito de permanecer em casa. Para descobrir o que foi apagado de seus registros, Valério segue as costuras deixadas pela mulher que o criou — e uma voz que parece conhecê-lo intimamente demais.
A busca o conduz para fora dos limites oficiais de Brasília, até as pessoas que o regime apagou de suas contas e até uma verdade capaz de alterar não apenas seu passado, mas a ordem que mantém milhões de pessoas obedientes.
Em uma cidade onde toda decisão foi entregue à máquina, Valério terá de escolher o que está disposto a destruir para voltar a pertencer a si mesmo.
Kenneth Vicente
Kenneth Vicente é o autor de A redenção de Valério, um romance de ficção científica social brasileira sobre pertencimento, identidade e liberdade em uma cidade governada por uma máquina.